Capitulo 103 – O dia em que o Saara encontrou com os Alpes

julho 29th, 2013

Como um filme de ação americano, Andrea e eu arrumamos as malas rapidamente na sexta feira a tarde para iniciar nossa fuga.  Saímos correndo de Torino antes da chegada do Caronte.

Para quem não sabe, Caronte, na mitologia grega, é o barqueiro que transporta as almas dos recém-mortos pelo rio que flui entre os dois mundos, o dos vivos e dos mortos. É também o nome da nova frente quente que chega na península procedente do coração do Saara e promete fazer estragos, não como a geleira que atingiu os Estado Unidos no filme The Day After Tomorrow, mas na pele dos italianos, de norte a sul, que deverão conviver com temperaturas acima de 30° graus pelos próximos dias, ou semanas.

Aqui, como a gente intui, até os meteorologistas discordam na interpretação das imagens dos satélites, cada um diz uma coisa. Enquanto eles discutem se o ápice do calor chega no sábado ou na próxima quarta feira, confirmo as informações no weather.com e  arrumo as malas para subir as montanhas (impossível não pensar na Noviça Rebelde … ahahahah) e me esconder do Caronte nos Alpes.

Com menos poesia e sem problemas de fronteiras, nossa escolha esta baseada na oferta de tarifas especiais (para agente de viagens) das principais redes hoteleiras e meu super agente, Andrea, descobre um hotel em Le Deux Alpes com uma tarifa agente de € 30,00 a diária.

Vambora !!!!

170 km depois, chegamos ao nosso destino. Que delicia de ar fresco!  Podemos respirar e dormir uma noite aconchegados e com a janela fechada.

Estamos em pleno Le Deux Alpes !!!!

Super famoso !!!

Ou você nunca tinha ouvido falar deste lugar ??? Não ???  Nem eu , mas agora sei que se trata de um importantíssimo centro de esqui nos Alpes Franceses,  a 1600 metros de altitude, que nasceu  nos  idos dos anos 60, período de ouro do pós guerra europeu, para atender a demanda francesa de lazer em uma região que era, originalmente, área de pastoreio de pequenas comunidades locais.  Se desenvolveu em um vale que desfruta a pendencia das duas vertentes das montanhas. Tem pistas de ski que começam a 3.500 metros de altitude e conta com 52 meios de elevação entre cabines, cadeiras e lifts, além de um monte de hotéis, lojas e restaurantes para atender ao publico que normalmente fica por aqui pelo menos por uma semana.  Tudo o que Campos de Jordao gostaria de ser!!

Mas o povo aqui não vive só de neve, não … no verão fica lotado de ciclistas que invadem a montanha para descer com suas  mountain bike. Todos os ski lifts tem espaço para colocar as bicicletas, o povo sobe a montanha com a bike no lift e desce em alta velocidade. E tão legal que Les 2 Alpes  faz parte do roteiro do Tour de France (de ciclismo) e ciclismo faz parte da vida e da economia de toda essa região.

No domingo, e antes de pegar o caminho de casa, fomos passear no entorno e chegamos em Le Bourg-d’Oisans. Trata-se é uma cidadezinha histórica, muito bonitinha, cortada por um canal onde se faz canoagem. Mas a fama desta cidade ecoa bem longe daqui, na Holanda. É porque a montanha em frente, Alpe d’Huez , faz parte do Tour de France e como dos quatorze primeiros vencedores, oito eram holandeses, a cidade e a montanha foram adotadas por eles e fica tingida de cor de laranja durante ao período da corrida. Lembrando que na Holanda não ha montanhas, os holandeses ocupam Le Bourg-d’Oisans durante todo o verão para praticar ainda mais aquilo que mais fazem na vida: pedalar.  Mas pedalar na vertical !

As horas passam e o termômetro não para de subir. Já estamos com 34.5°C, em plenos Alpes. Perguntamos ao dono das canoas que alugamos para descer o canal e nos refrescar um pouco, se todo verão é assim e ele confirmar que nunca experimentou uma temperatura tão alta. Nunca sentiu tanto calor. O vento quente que sopra da África é potente e os Alpes nunca estiveram tão próximos do Saara.

Enquanto isso imagino o Caronte lá em Torino, invadindo o nosso apartamento. A essas horas ele deve estar sentado na sala, todo suado, com uma camiseta regata suja de molho de tomate, tomando um sorvete que escorre pelos dedos e suja o nosso sofá, assistindo TV com os pés imundos, de quem atravessou o deserto, em cima da nossa mesinha de centro encerada ….. a gente vai ter que voltar para casa e enfrenta-lo. Suo só de pensar ….

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