Capitulo 104 – Exodo de Verao

abril 18th, 2014

Começou Agosto e o êxodo dos italianos para seu sagrado período de ferias.
Todo mundo me diz que no passado era pior, mas mesmo assim me deprime ver tantos locais fechados: lojas, restaurantes, escritórios, igrejas, supermercados, com seus cartazinhos pregados na porta: ESTAMOS EM FÉRIAS, RETORNAREMOS NO FINAL DE AGOSTO … ou de setembro !!
Alguns gatos pingados ficam abertos, por isso a sensação de que já não é como antigamente, mas com pouca coisa para oferecer porque não tem muito publico para consumir. Sair de casa com um calor de 37° e sem brisa só ser for para ir a um local com ar condicionado, o que não é muito comum por aqui.
Mas tenho que sair para fazer a troca de uma sapatilha para escalada (encomenda) que comprei. Tentei falar com a loja por telefone mas não encontrei o numero no site. No caminho passo na frente do cabelereiro que faz só corte com escova, continua as moscas. Na loja, que não tem ar condicionado, troco o sapato e peço um cartão de visita deles, explicando que não havia encontrado o numero de seu telefone no site. Me diz o atendente: mas não tem nem no cartão de visitas porque senão as pessoas ficam ligando aqui!! Fiquei com um “oi??” parado na garganta.
Depois me lembrei da conversa com o técnico do aquecedor de casa. No verão é feita a manutenção do sistema de aquecimento no prédio e como as válvulas dos aquecedores de casa são muito velhas, ficam vazando a agua (quente que circula dentro) e pingando no chão. O técnico veio verificar e apertou bem as válvulas de entrada para não vazar mais e me alertou: não mexa nelas! Estão abertas e não podem ser fechadas senão vai começar a vazar novamente.
Mas porque não trocar estas válvulas centenárias? Como faremos se a temperatura estiver muito alta, sem poder fechar o sistema? A resposta: abre a janela e deixa entrar o frio.
É assim … Um pais que resiste em se modernizar.
Nos últimos dias conversando com muitos amigos sobre os últimos eventos políticos locais, cheguei a conclusão que a Itália ainda não faz parte do Primeiro Mundo porque a sociedade italiana não amadureceu, permanece como uma sociedade camponesa, apegadíssima as suas tradições sociais, religiosas, gastronômicas e politicas. O Estado de Bem Estar Social vigente e agora em fase de agonia, não foi uma conquista suada, fruto de muitas lutas e de um amadurecimento lento, foi um presente que veio dentro do pacote do Plano Marshall para “impermeabilizar” a península contra o socialismo que respirava do outro lado do Adriático, após a Segunda Grande Guerra. O nível de corrupção do Estado e da sociedade é assustador. Não existe um sentimento e um projeto nacional porque não existe um povo italiano. Existem piemonteses, napolitanos, emilianos, sicilianos, toscanos, lombardos e venetos, que defendem o seu pequeno universo territorial-cultural e encaram o vizinho como inimigo. Sentimento nacional só quando a Azzurra entra em campo e, veja bem, entram com uma camiseta azul, cor que nem existe na bandeira italiana mas está lá porque faz parte do brasão da família Savoia.
Apesar de tudo isso e de muita gente mal humorada e mal educada trabalhando nas lojas e restaurantes (né Andrea?), adoro morar aqui porque mesmo sem me sentir parte dessa sociedade dividida e esquizofrênica, me sinto parte de uma família (piemontesa) que me acolheu e me cuida como uma filha.
Mas hoje é também meu ultimo dia na Itália antes de voltar ao Brasil. Amanha cedo partimos para Sevillha, de onde embarco para meu retorno a São Paulo na semana que vem. Estou arrumando as malas, lembrando dos cremes que custam mais barato aqui, do Parmiggiano que o Luis me pediu, dos óculos de sol para o Lulu, meu neto, das encomendas da Fernanda que enchem a segunda mala e do biquíni que não posso esquecer porque vou ter que esperar o próximo voo sentada na beira da piscina sob um guarda sol, com mais de 40° na sombra ….se eu achar uma. Ai que medo!
Mandarei noticias,
beijos

Capitulo 103 – O dia em que o Saara encontrou com os Alpes

julho 29th, 2013

Como um filme de ação americano, Andrea e eu arrumamos as malas rapidamente na sexta feira a tarde para iniciar nossa fuga.  Saímos correndo de Torino antes da chegada do Caronte.

Para quem não sabe, Caronte, na mitologia grega, é o barqueiro que transporta as almas dos recém-mortos pelo rio que flui entre os dois mundos, o dos vivos e dos mortos. É também o nome da nova frente quente que chega na península procedente do coração do Saara e promete fazer estragos, não como a geleira que atingiu os Estado Unidos no filme The Day After Tomorrow, mas na pele dos italianos, de norte a sul, que deverão conviver com temperaturas acima de 30° graus pelos próximos dias, ou semanas.

Aqui, como a gente intui, até os meteorologistas discordam na interpretação das imagens dos satélites, cada um diz uma coisa. Enquanto eles discutem se o ápice do calor chega no sábado ou na próxima quarta feira, confirmo as informações no weather.com e  arrumo as malas para subir as montanhas (impossível não pensar na Noviça Rebelde … ahahahah) e me esconder do Caronte nos Alpes. Leia mais… »

Capitulo 102 – Dialogos Italianos

julho 29th, 2013

Andrea vai ao órgão publico, equivalente a Policia Federal, fazer a autorização de viagem para as meninas irem para a Espanha com o tio.

O escrivão pede o documento de identidade de ambas. Observa atentamente frente e verso e pergunta:

- Mas aqui não tem a filiação delas?

Andrea responde:

- Porque não existe este campo no documento!

- Mas porque você não pediu para incluírem?

- Oi?

Estou procurando um cabelereiro para cortar meu cabelo. Entro em um , que esta vazio, e digo:

- Quero cortar meu cabelo.

A senhorita que atende me diz:

- Corte e escova € 35,00

- Quero só cortar…

- ahh .. não da … Só corte com escova.

- Mas aqui na sua tabela tem: corte  € 20,00

- Tem mais a gente não faz ..

- Oi?

Francesca precisa fazer novo passaporte. Vai ao Correio porque aqui na Itália é no Correio que vc preenche o formulário e paga a taxa de € 80,00. Formulário entregue e pago, a atendente informa:

- Agora você precisa pagar o selo (€ 40,00) para oficializar o pedido.

- Hummm .. ok, aqui esta o dinheiro.

- Não, o selo você não compra aqui…

- Como assim?

- O selo se compra em uma loja de conveniência.

- Oi?

A nonna vai almoçar fora. São três adultos e três meninas. Entram em um restaurante que tem uma mesa media vazia com seis cadeiras e uma pequena  já arrumada para quatro pessoas com quatro cadeiras . A garçonete indica a mesa pequena. A nonna pergunta:

- Não podemos ficar na mesa maior ?

A garçonete responde:

- Vou perguntar para minha tia.

E volta:

- Não, a tia disse que é para sentar na mesa pequena,  que é para seis pessoas….

- Oi?

Saio na hora do almoço para passar no super mercado Carrefour, aqui na praça. Fechado para almoço.

Na rua ao lado vejo um mercadinho indiano aberto. Não fecha para almoço e trabalha também aos domingos.

Saio na hora do almoço para comprar uma camiseta. Todas as lojas estão fechadas. Encontro uma lojinha chinesa na esquina. Esta aberta. Não fecha no almoço e nem aos domingos.

Saio as 14h30, um pouco mais tarde do que o normal, para almoçar e os restaurantes já estão fechados. Encontro um Kebab egípcio aberto.

Fico me perguntando: a crise é a causa ou a consequência deste modelo?

Capitulo 101 – Paris

julho 13th, 2013

O grande desafio deste capitulo do Diário é falar de Paris e contar algo novo.

Uma cidade que já foi cantada em verso e prosa, fotografada, filmada e narrada, não reserva muitas surpresas  … Então, o que registrar do meu final de semana na capital francesa com Andrea e as meninas  sem parecer o guia Lonely Planet ?

Pensei em uma abordagem nova (para mim) e ao invés de passear pelas letras, onde me movo com mais conforto, vou arriscar falar de alguns números. A tarefa não é difícil se começo pelo Museu do Louvre, o grande motivo dessa viagem. Leia mais… »

Capitulo 100 – Sao Paulo

julho 13th, 2013

Chego hoje ao capitulo 100 do meu diário.

Como é um numero especial e redondo, havia pensado em dedica-lo à minha filha e ao meu neto, que estão aqui ao meu lado, falando do prazer, da alegria e da realização que é tê-los por perto. Contar como é bom poder acompanhar o crescimento desse bebe que me transmite uma sensação  de continuidade e quase imortalidade. Além do que ele é lindo e a Fe uma mãe delicada, tranquila, apaixonada por seu bebe e de bem com a vida. Tem coisa melhor?

Mas não consigo desenvolver esse discurso pessoal  de felicidade lendo o que se escreve na facebook e nos sites brasileiros, onde me informo sobre o cotidiano tupiniquim, a respeito dos protestos que começaram em São Paulo se espalham em outras cidades como faísca em palha seca. Leia mais… »